quarta-feira, novembro 28, 2007

O MEU MARIDO



A expressão o meu marido, se analisada com cuidado, não só daria para uma excelente reflexão, como bem trabalhadinha até para uma qualquer tese sobre o assunto. A frase é a mesma, não muda, não tem de mudar, nem tem como mudar. Muda, e muito, é a entoação com que esta é proferida, as vezes em que é feita, os motivos que a evocam e o público alvo. Com naturalidade numa conversa trazemos aqueles que nos são mais queridos por variadíssimas razões, temos prazer e orgulho em falarmos sobre eles. A diferença reside em dizer-se no outro dia o meu marido chegou atrasado ao emprego ou o meu marido ligou-me para saber se eu estava bem porque passei mal a noite e dizer-se no outro dia O MEU MARIDO ligou-me porque passei mal a noite, ou ainda, O mEu MaRiDo fez isto e aquilo, o MeU mArIdO, o MEU marido, O meu MARIDO e por aí em diante. Nalguns casos mais gritantes os olhares femininos cruzam-se de imediato, nalgum tom de crítica, muito subtil como é costumes entre senhoras. A feliz contemplada com UM MARIDO fê-lo saber, a alto e bom som, para que não restassem dúvidas entre as presentes, as que por acaso passavam, as que estavam no corredor e as do andar de cima. Aquela senhora era uma premiada, foi importante sabê-lo.

Outros casos, não menos interessantes, são os daquelas que, por alguma razão, não viram oficializado o seu enlace e, por isso, estão juntas, amantizadas, em união de facto, ainda em fase de namoro prolongado, mas por acaso já a partilhar a vida. São várias as formas existentes para descrever a situação actual do casal, eu gosto particularmente do sou junta, não sou casada. Uma vez não tendo sido proferidas sobre as suas cabeças as palavras declaro-vos marido e mulher, principalmente a mulher, vê-se um bocado às aranhas quando se quer referir à sua cara metade. Ele não é meu marido porque não casámos, defendem-se algumas quando se nos escapa um então, como está o teu marido? Nestes casos são também curiosos os nomes por que são chamados: o meu companheiro, o meu namorado, o meu parceiro, qualquer coisa menos o meu marido.

Os homens para além de não complicarem tanto por Natureza neste tipo de coisas, têm a vida duplamente facilitada porque a minha mulher para aqui, a minha mulher para ali não ofende a ninguém e está o assunto resolvido. E é muito interessante porque não me recordo de nenhum episódio em que A MINHA MULHER alguma vez tenha sido efectivamente dito, com a intenção com que uma mulher o pode dizer.

São, de facto, dois mundos muito diferentes nalgumas coisas. Acho que parceiro, marido ou namorado importa é que as pessoas sejam felizes. Se se encontraram, que façam por perpectuar os compromissos que assumiram, com lealdade e, também, um pouco de humildade.

segunda-feira, novembro 26, 2007

Jantar


Só pus a mesa a contar comigo hoje. O jantar é mais pobre, a casa está fria, o teu lugar está vago. As loiças fui buscá-las ao armário que raramente é aberto. Quis fazer especial este momento, já que a solidão ninguém ma tira.

domingo, novembro 25, 2007

Perspectivas II

- Quando olho para esta imagem realça-me logo a bonita pulseira que ela traz. Acho um pormenor fenomenal, não concordas?
- Sim, claro.
- Acho muito importante a cor dos olhos e o cabelo esticado. Assim, caído sobre os ombros fica muito bem, o que dizes?
- Sim, pois...
- Está um bonito retrato, ela certamente ficou muito satisfeita com o resultado final. É uma fotografia da qual se deve orgulhar, não achas?
- Sim, acho.
- E tu? Não dizes nada? Não comentas? Só concordas?
- Sinceramente? Vejo uma gaja boa, um olhar provocador e um fio dental. Não consigo ver muito mais do que isto. E só tenho pena que não seja tua amiga porque faria muito gosto em fazer parte do seu círculo de amizades. Desculpa se estou a ser demasiado redutor, mas tu é que perguntaste.

sexta-feira, novembro 23, 2007

Vá lá


Está bem, não peças mais que não a pena, já me convenceste. Sabes que acho deliciosa a forma como levas a água ao teu moinho. Acho incrível a maneira como me deixo seduzir por ti, mas tem valido muito a pena, fá-lo-ei sempre e todos os dias porque só para ter o teu sorriso rasgado, tudo é válido. Pede que eu dou, mas com carinho...

quinta-feira, novembro 22, 2007

quarta-feira, novembro 21, 2007

Leva-me daqui


Esta noite sonhei que me levavam para bem longe daqui. Não sei para onde me levavam, não sei quem me levava, só sei que sentia uma enorme confiança, sentia-me segura. Não fiz perguntas, não inventei desculpas ou me precipitei em disparates. Deixei que a oportunidade tomasse conta de mim e que a sensação de aventura me guiasse a um lugar desconhecido que eu pressentia confortável. Deixei que o vento batesse suavemente no meu rosto, as minhas tranças pretas voavam como os pássaros, ondulavam ligeiramente ao sabor da brisa. Sei que a expressão da minha cara era feliz, sentia-me cheia por dentro, nada mais cabia dentro do meu peito, acho que é esta a sensação de realização. Momentaneamente sentimos que nada nos fará mais felizes do que aquilo: temos tudo. Era isso que sentia nesta pequena viagem.

Sentia-me como num conto de fadas, talvez porque tenha lido muitas histórias encantadas em miúda ou me tenha deixado influenciar pelos desenhos animados e as suas histórias com finais felizes. Adoro finais felizes. Mas este passeio acabou mal. Levada por vários balões de cores garridas vi aproximar-se lentamente um pássaro azul. Sorri-lhe de imediato, queria-o comigo nesta etapa. Assobiei-lhe e ele aproximou-se. Um a um picou todos os meus balões, caí desamparada no chão. Nesta aflicção acordo com o despertador mal disposto. Malvado, foi ele que me estragou o sonho, todos os dias acorda rabugento e é em mim que descarrega. Calei-o, mas desta vez não lhe dei o murro do costume. Silenciei-o só, pode ser que amanhã ele se lembre e me acorde com outros modos.

terça-feira, novembro 20, 2007

Páginas a preto e branco


Quando no livro da tua vida encontrares uma página a preto e branco vai àquela gaveta que nunca abres, onde depositaste os lápis de côr gastos de tanto afiar, as canetas de feltro que já só borram, os restos de lápis de cera partidos que sobraram e os guaches secos e apertados e atribui-lhes as cores que mais gostares, aquelas que queres que marquem aquele dia específico que, por alguma razão, saiu descolorado. Se precisares de ajuda procura quem te dê uma mãozinha para cumprires esta tarefa com sucesso, importa que seja alguém especial, alguém que naturalmente já te ilumina só pela sua presença. A dois para além da nova côr, poder-lhe-ás dar outro sabor, outra luz. Um novo perfume à página seca do livro da tua vida.

segunda-feira, novembro 19, 2007

Tiro eu ou tiras tu?


Tiro eu ou tiras tu?
Quando se cumpre a promessa há muito feita, mas nunca dita.
Quando a vontade se instala e o momento acontece.

Tiro eu ou tiras tu?
Talvez nem seja uma pergunta relevante ou até o seja.
Talvez não seja o momento mais apropriado ou até o seja.

Tiro eu ou tiras tu?
Não esperavas a pergunta, nestas situações não se pensa.
Não sabendo o que haverias de responder, tiraste e ficou o problema resolvido.

sábado, novembro 17, 2007

Chegado o Outono


Começamos a sentir o Outono mais a sério. Começa o frio e os dias cinzentos, cada vez mais curtos, às 17h30 é de noite e a vontade de nos aconchegarmos começa cedo. As bebidas frescas são trocadas por chávenas de chás aromáticos, cafés cada vez mais sofisticados ou canecas de chocolate quente que não só nos confortam por dentro, como nos maravilham pelo seu sabor forte e intenso. Quando penso nestes serões vejo-os serenos. Na rua as pessoas caminham encolhidas, evitam parar porque quietas arrefecem muito facilmente. Aglomeram-se para que o calor que exista se concentre, procuram quem as acolha num abraço que se quer eterno. Em casa as mantas são fiéis companheiras, uma lareira acesa, uma televisão, um filme que não cansa, uma caneca na mão que apertamos com força, uma sala a meia luz, um nariz gelado. Nos meses frios do ano são momentos como estes que naturalmente procuramos, que inevitavelmente passam a fazer parte do quotidiano.

sexta-feira, novembro 16, 2007

Doce e cremosa


Hoje estavas linda. Olhava para ti e sentia-te cremosa e aveludada. És um doce raro de encontrar, és um ternura de pessoa, uma pérola cobiçada. É uma alegria ver-te passar porque a tua côr espalha-se por onde passas e a tua aura é capaz de tocar até do mais distraído. A luz que te cobre, não é muito intensa, não fere a vista ou ilumina o caminho, mas é uma luz que nos aquece por dentro, que nos conforta o coração. A tua presença é sempre desejada e por todos querida.
Estranhei que abriste a mala, olhaste lá para dentro e deixaste apagar a tua luz. Percebi que não encontraras o que desejaras. Sentiste-te sozinha e nem a multidão sorridente que te rodeava chegava para suprimir aquela falha. Largaste a mala, abriste as mãos e viste-las vazias. O terror da frieza invadia-te aos poucos e o gelo era insuportável para ti. A pastilha que mascavas perdera o sabor, o teu nariz deixara se sentir o aroma das coisas. Tudo em ti perdia o valor normal das coisas, perdias o rumo. Todos percebemos a tua angústia, um estendeu-te a mão e depositou-te no canto em que a verdade acontece e o amanhã recebe uma nova vida. É o corte com aquilo que não queres, para te reencontares com a pessoa que és e sempre serás e com o futuro com que sempre sonhaste.

quinta-feira, novembro 15, 2007

quarta-feira, novembro 14, 2007

Gajas há muitas


- Olá, bom dia! Bem disposto?
- Sim, sempre. Quer dizer... Nem por isso - percebi que não estava bem.
- Então? Algum problema?
- Não, nada que não se resolva. A minha namorada, com quem estava há três anos e meio, traiu-me.
- Epa, que chatice. - não sabia o que dizer, sentia que nada havia a dizer, nestes momentos acho que o próprio nem deseja que nada seja acrescentado. Ele quer somente desabafar o que o atormenta, largar a dor que trás.
- Acreditava que tinha a minha vida encaminhada, os planos para o futuro eram mais que muitos, a partilha da vida era já uma realidade. Tudo em vão, para acabar assim. Mas não lhe guardo qualquer rancor, é ela quem fica a perder, ela sabe disso, as suas lágrimas são só o resultado do remorso que sente pelo tudo que pôs a perder por umas horas de prazer.
- Compreendo-te bem, sabes que tenho como mote na minha vida que importa sempre a nossa consciência, nada mais, porque é com ela que teremos de viver para sempre.
- Sim, concordo. Fiz tudo o que podia, dava-lhe tudo, planeava pelo Natal oferecer-lhe o carro que ela tanto desejava ter, estava a poupar para lhe fazer essa surpresa. É estúpido não olhar para mim agora como um palhaço. Outra beneficiará do que tenho, da pessoa que sou.
- Pela forma como falas suponho que tenhas terminado a relação.
- Sim, claro. Não podia continuar com uma pessoa em quem não confio minimamente. Participei numa competição no estrangeiro e nessa temporada em que estive fora ela envolveu-se com outro homem. Na altura estranhei o seu comportamento incómodo, estranhei-a como pessoa, não te sei explicar, essas coisas sentem-se.
- Claro, entendo.
- Ela acabou por não suportar a pressão e contou-me o que se tinha passado. Estou bem e estou mal ao mesmo tempo, sinto-me esquisito.
- A tua vida mudou: mudou a tua rotina, mudaram os teus hábitos. Aquela peça certa e presente na tua vida desapareceu e com ela vai uma boa parte da tua vida, tens de te readaptar ao facto de agora estares sozinho.
- Sim, é isso mesmo. É essa a falta que sinto. Sempre soube pôr as pessoas nos seus devidos lugares, nunca dei confianças às mulheres que se aproximavam por muito irresistíveis que fossem, os meus princípios estavam e estarão sempre acima de tudo e eu acreditava que a pessoa que tinha comigo estava comigo nesta verdade. Doi-me isso. Eu sei que fraquezas, falhas todos temos e cometemos, mas não posso deixar passar uma coisa destas sob pena de pôr em causa a minha vida toda, a minha felicidade. É porque não era ela a pessoa certa para mim ou até era, não sei, nem nunca o saberei porque aquele é um capítulo terminado na minha vida. Sempre fui um livro aberto, ela tinha acesso a tudo o que era meu, sem segredos, nem tabús. Não imagino uma vida a dois com meias coisas: ou é tudo ou não é nada e ela tinha tudo meu. Dei-lhe um cartão multibanco da minha conta, ela era quem andava com o meu carro, dei-lhe uma cópia da chave da minha casa, no fim desabarmos como casal por um capricho dela. Não há nada na minha casa que não tenha sido escolhido pelos dois, prevalecendo sempre a opinião dela sobre a minha, seria também um dia a sua casa e queria que ela estivesse feliz, que sentisse que aquele espaço era tão seu quanto meu. Nada era meu, tudo era nosso. Pergunto-me se terá valido a pena.
- Entendo-te e, se me permites digo-te, valeu a pena, muito a pena, na medida em que o fazias porque amavas e nada que seja feito de amor sincero perde valor, pelo menos para o próprio, por muito mal que ele se sinta. Perde quem não valorizou o que fizeste.
- Não me assusta pensar namorar outra pessoa, só me assusta pensar e quem? Gajas há por aí com fartura, fúteis, plásticas, exuberantes. Quilos de tinta, horas de cabeleireiro, para fazerem realçar as únicas qualidades que têm. Ocas de cabeça, deslumbrantes à vista. Sabem que só nos conquistarão pelo aspecto e nisso são mestras. Não quero ninguém assim para mim, prefiro estar sozinho a deixar-me iludir por aquilo. Quero uma mulher a sério, alguém que assuma um compromisso, que me respeite e se dê ao respeito. Alguém com objectivos, metas, ambições, valores. No fundo procuro uma igual, particular na sua diferença, é certo, mas uma igual naquilo que deve de ser. Julgava tê-la encontrado. Nunca conhecemos verdadeiramente ninguém, nunca saberemos do que elas serão realmente capazes de fazer, sobre que pretextos, que razões, com que interesses. Sei que não é missão fácil, resta-me esperar.
- E vais conseguir.

Andei o dia todo a remoer cada palavra que trocámos, cada expressão do seu olhar, cada gesto. É das pessoas mais transparentes que conheço, custou-me, como acho que custa sempre um episódio destes.

terça-feira, novembro 13, 2007

Inveja é coisa feia


A inveja é uma coisa feia, mas invejo a tua forma alegre de estar na vida, o teu sorriso sempre pronto e a tua expressão satisfeita. Até nem estou a ser grande invejosa, há piores. Invejo também o teu ar saudável, a tua firmeza ao encarares o futuro e ao lembrares o passado. Bom ou mau não sei, mas vidas perfeitas ninguém as tem e a tua parece sê-lo e isso não me agrada. Invejo as tuas cores luminosas, transmitem-me vida e fazem-me pensar em vidas cor-de-rosa. Invejar é a pior coisa do mundo, Deus nos livre de tal sentimento e de tais gentes. São pessoas amarguradas, marcadas pelo ódio, incapazes de dar valor ao que têm ou conquistaram, os outros é que são bons, têm coisas boas. Até me arrepio só de pensar neste assunto. Eu não o sou, nem nunca o fui, mas esse teu olhar simpático irrita-me, gostava de ter um assim também. Escreve o que eu te digo, quando te cruzares com um invejoso já sabes, foge dele a sete pés antes que olhe para ti com o ar de cobiça com que eu te olho.

segunda-feira, novembro 12, 2007

Buzinão

http://gazetaweb.globo.com/Canais/Supermaquinas/Sinalizacao/Gifs/Regulame/red37.gif

Fica a questão: a buzina do carro esgota? Se no trânsito a pressionar afincadamente como se não houvesse amanhã e não a largasse mais, ela acabaria alguma vez? Avariava? Pedia férias ou reforma antecipada? Ela alguma vez perde o pio?

domingo, novembro 11, 2007

Adivinhos


Queria ser capaz de ler nas entrelinhas, de perceber os silêncios, de entender os olhares, de acreditar nas palavras. Nem sempre o consigo e quando isso acontece volto-me para o que posso e espero que o tempo cure a angústia e traga as respostas que quero que sejam instantâneas.

sábado, novembro 10, 2007

Onde? Porquê? Para quê? Quando?

Não sei a quem já a entregaste, se já o fizeste, se já o ouviste, quantas vezes, com que frequência, porque razão, em que circunstância, como o sentiste, como o viveste, o que fizeste, como o fizeste, qual a sua consequência...
Não sei porque para alguns é tão querida e para outros tão insignificante. Uma coisa é certa: não lhe somos (acho que não podemos ser) indiferentes, sabemos que por trás desta palavra está a declaração de quem (em princípio), de coração sincero e aberto manifesta o que de mais belo e puro pode existir - o amor. Cada um que o diga de sua justiça, mas para mim é das melhores coisas do mundo.

sexta-feira, novembro 09, 2007

smoke


Se o teu perfume tivesse uma côr estou certo de que seria vermelho, cheiraria a doces morangos e enfeitiçaria quem por ti se cruzasse. Mas isso não acontece, sei que passas por mim e despertas a minha atenção e o meu desejo, somente porque passas e me tocas com a tua naturalidade. Nada em ti é artificial, tudo é único e genuíno e é na tua inocente criatividade que reside o teu segredo. Não precisas deste perfume que te queria oferecer, já o trazes contigo desde o dia em que nasceste.

quinta-feira, novembro 08, 2007

Quedas


Ontem ia a passar quando tropeço numa pedra e espalho-me ao comprido. Naturalmente entre a dor ainda mal suportada e o instinto de me refazer do susto, olho em volta na esperança de que este momento humilhante tenha sido só meu e que ninguém se tenha apercebido da minha triste sorte. Uma meia dúzia olhava-me de lado, mas sem grande intuição para me dar a mão, puxar-me para cima. Observavam a ave rara que se estendera ao comprido no meio da via pública e que, por esse razão, se não se despachara a levantar, não tarda estaria a impedir a normal circulação de transeuntes. Sentei-me no chão, olhei para as minhas calças e levanto-as na esperança de não me ter aleijado muito. Um joelho esfolado. Bem, podia sempre ser bem pior. Sentia um enorme ardor nesse joelho, já nem me lembrava do que isto era. Em miúda era hábito e sintia-me novamente como uma criança que cai ao chão e corre para os braços de alguém em busca de auxílio. Trinta anos depois a diferença é que eu não tinha a quem recorrer neste momento de aflição. Foi com alguma pena que constactei isso, é tão confortável termos um colo a que podemos recorrer para chorar, que ele absorverá cada lágrima nossa a transforma-la-á em força para suportarmos as próximas adversidades. É um bonito gesto de amor. Sozinha lá me apoiei ao que encontrei e com algum custo pus-me de pé para prosseguir o meu caminho depois desta pequena interrupção. Meia coxa lá fui convencendo o meu joelho de que magoado ou não, ele tinha mesmo de fazer esta viagem. Quando chegasse a casa lá lhe daria o tratamento necessário e a atenção merecida, mas até lá pouco ou nada mais podia fazer...

quarta-feira, novembro 07, 2007

Tu estás aí?


Posso mentir aos homens, contar-lhes aventuras, exagerar nos pormenores, oferecer promessas fáceis de dizer, mas difíceis de cumprir. Posso tudo isto e muito mais porque ninguém calará a minha boca, me amordaçará ou prenderá. Com convicção vendo as mais fantásticas estórias. Contudo não me consigo enganar a mim, nem a Deus. Somos os únicos que não nos deixamos cair na fantasia das minhas palavras. Talvez por isso a fuga à Sua existência seja bem mais confortável do que assumir a Sua omnipresença. É duro saber que o segredo das nossas fragilidades não permanece somente connosco.

terça-feira, novembro 06, 2007

Menina


Menina bonita, do olhar prometedor, não sabes o quanto me deixas sem hipótese de fuga quando de mim te aproximas.
Postura terna e tentadora, apareceste sem que desse conta e hoje não me sais do pensamento.
Palavras meias ditas, pensamentos diluídos e questões por colocar, não sei se temo a tua resposta por ser afirmativa ou negativa. Sinto-me novamente um cobarde, hoje diante da tua presença.

segunda-feira, novembro 05, 2007

Oportunidades


Agarra as oportunidades que te são oferecidas. Preserva aquelas que valem a pena. Tira das que não prestam a lição que elas tiverem para te ensinar. Acima de tudo age sempre em conformidade com a tua consciência porque é com ela que terás de viver para o resto da tua vida.

domingo, novembro 04, 2007

Quatro dias depois





Quatro dias depois fica um pequeno espreitar sobre o muito que vi e vivi. É difícil de descrever o misto de coisas que se sentem. Numa única frase afirmo que valeu muito a pena. Foi bom sair da rotina e temporariamente cortar com o mesmo acordar para acordar para um novo olhar sobre a vida e sobre o mundo.

quarta-feira, outubro 31, 2007

Vou fugir


Vou fugir. Apanho boleia, parto depressa. Vou-me embora. Arrumo as malas, preparo-me. Parto. Conto os dias, oriento as coisas. Apresso-me. Não sei ao que vou, mas confio. Acredito na palavra, por isso agarro na mão forte e aperto-a o quanto posso. Olho cuidadosamente e sorrio sem pensar. Este meu sorriso que não se canso de se rasgar, este meu melhor amigo que contagia quem por ele se deixa tocar. A oportunidade desta viagem foi única, mas sofrida. Para que o amanhã fosse mais leve, teve o hoje de ser mais pesado. Reconheço-o, admiro-o. Vou contente porque vou com quem quero, porque vou leve e desafogada. Vou na esperança de encontrar um outro lado da vida raras vezes visitado e, talvez por isso, muito apreciado. Comigo vão também as boas recordações do hoje, o essencial depois do dia filtrado. Ficam muitas coisas e coisas boas: as minhas crianças, os abraços apertados que demos, os beijos com sabor a iogurte de morango; os meus adultos, as risadas descontraídas, as brincadeiras apropriadas; os meus colegas e a graça de termos ao nosso lado quem fale a mesma língua que nós, quem nos compreenda.
- Por que te ris de mim?
- Já te disse que não me rio de ti. Apenas sorrio para ti.
Quando menos esperarem estarei de volta, inevitavelmente tocada pela minha fuga.

terça-feira, outubro 30, 2007

Como uma criança


É tão bonita a alegria das crianças. A descoberta do mundo é uma coisa fantástica, tudo nos fascina, tudo nos encanta, tudo é motivo de curiosidade e por isso razão para experimentação. Com o tempo tudo habitua, deixa de trazer novidade, passa a fazer parte da rotina. Acho que o nosso maior desafio é este: conseguirmos no dia a dia, naquilo que já passou a fazer parte de nós, reencontrarmos formas diferentes de valorizarmos o simples facto de termos uma mesa farta, uma cama fofa, uma palavra amiga, uma cara metade. Fazer de todos os dias um novo acordar para o mundo que nos acolheu para sermos felizes.

segunda-feira, outubro 29, 2007

Em jogo


Afinal de contas o que é que está sempre em jogo?

domingo, outubro 28, 2007

Perfeito


Hoje apetece-me dizer-te que és linda. Quero mostrar-te que te acho perfeita, que, apesar das arestas que tens a limar, nenhuma delas é impeditora ou condicionadora ao amor que sinto por ti. Tudo fica diminuído perante o todo que és. Porque estou certo do que sinto e da opinião que já formei sobre ti, deixo-o aqui imortalizado, como uma espécie de hino que te podia cantar, que só a ti dedico.

sexta-feira, outubro 26, 2007

Pieces of me


Se há dias em que me sinto bem, este é claramente um deles. O dia esteve bonito, estou bem comigo, estou bem com o mundo. Cada bocadinho de mim vive intensamente tudo aquilo que toca ou por quem se cruza. Sou um todo dividido de forma a que eu possa ser cada vez mais feliz.

quinta-feira, outubro 25, 2007

Só damos valor quando perdemos



Eu já sabia disto, mas cada vez me convenço mais da sua veracidade: só damos valor às pessoas quando as perdemos. Mais ainda me assusta pensar naquelas que são incapazes de serem superiores ao seu próprio orgulho, sob pena de perderem quem realmente pode valer a pena. Sou e sempre fui da opinião que as coisas são para serem vividas quando têm de ser, quando nos sentimos capazes e conscientes e as pessoas de serem estimadas e de fazermos por as perpectuarmos na nossa vida se, de facto, valem a pena.

A experiência de trabalhar com adultos tem mexido um bocado comigo, sinto-me uma esponja a absorver cada gota de água que se lhe é salpicada, sinto-me desafiada. É normal, faz parte do habitual percurso da paixão, da novidade, neste caso adaptado à minha actual situação profissional. Com o tempo virão os problemas e as adversidades, o cansaço, a rotina e a habituação às pessoas e aos espaços. O que hoje é imprevisível, amanhã é só mais uma confirmação, é mais um item a acrescentar à ideia que já formei em relação àquelas pessoas. Que isto faz parte da vida já todos sabemos e que muitas são as pessoas que entram e saem e poucas são as que permanecem, também não é novidade para ninguém, mas assusta-me a ideia de perdermos apenas porque as não soubemos estimar na altura certa. E depois do adeus esforçamo-nos para que o sentimento de culpa nos abandone para podermos continuar a viver bem connosco próprios. A semana passada dizia-me uma pessoa que o fracasso dos nossos projectos é culpa de uma só pessoa: nossa. E não vale a pena estarmos a arranjar outras desculpas, nem a culpar terceiros. Eu percebi o que ele me disse. A culpa é e será sempre nossa na medida em que não fizemos como devia de ser a parte que nos competia. Falhámos, fracassámos. Por isso, fica o conselho para mim e para todos porque é muito desagradável um amargo de boca destes...

quarta-feira, outubro 24, 2007

Convites


Eu já dei a primeira dentada. Queres dar tu a próxima?

terça-feira, outubro 23, 2007

Talks


- Olá minha querida. Que bom encontrar-te por aqui. Ainda não me deste um beijinho hoje. Então, como correu o teu fim de semana? Esperava que me ligasses, não o fizeste. Fico feliz por saber que estás bem, mas isso não compensa a falta que me fizeste, a saudade que senti.
- Não te procurei, de facto, mas não quero com isso dizer que não me tenha lembrado de ti. Peço-te encarecidamente um favor. Pára com essa atenção, pára com essa doçura, não quero e não posso continuar a ouvir as tuas palavras ternas, a sentir o calor do teu olhar. Mede a consequência dos teus actos. Em parte não tens culpa, a minha revolta não é contigo ou por tua causa. Vens somente ressuscitar o que sou e o que tento que à viva força desapareça da minha vida. Portanto, e porque sei que me estimas muito, farás o que te peço.
- É um erro o que me pedes, mas fá-lo-ei por ti. Derreto-me com a tua inocente forma de estar, com a gentileza do teu gesto e o teu sorriso incomparável. Estás a voltar as costas à delícia de pessoa em te tornaste, em prol de um muito pouco. Olho-te porque te admiro, porque não consigo conter a alegria de te conhecer. Dou-te o espaço que me pedes, mas sei que o tempo falará por si e, nesse dia, sabes quem vais procurar.

segunda-feira, outubro 22, 2007

Qualidades e defeitos II


- Então diga-me lá o que é que a senhora ganha pelo facto de ser uma mulher humilde, trabalhadora e honesta?
- Bem, acho que as pessoas confiam mais em mim. Sou uma pessoa em quem se pode confiar.
- Muito bem. E agora diga-me de que forma é que pode moderar estes seus defeitos? Como é que a senhora pode ser melhor? Menos impulsiva ou teimosa?
- Eu? Como é que eu posso mudar os meus defeitos? Só conheço uma maneira. Pedindo a Deus, só Ele pode-me ajudar, mais ninguém. É a Ele que eu recorro para ser uma pessoa melhor.

domingo, outubro 21, 2007

Qualidades e defeitos


Esta semana estava com os meus alunos e tinha de os levar à reflexão sobre os defeitos e as qualidades. Dividimos o quadro a meio e conforme lhes vinham à ideia íamos distribuindo as características ora numa, ora noutra coluna.
- Mentiroso, ladrão, invejoso, orgulhoso, impulsivo.
Aos poucos a coluna dos defeitos atingiu uma proporção significativa. Achei o episódio curioso, não pude deixar de os chamar a atenção para aquilo.
- Meus amigos, temos dez defeitos e três qualidades. Não acham isto interessante? - isto é o reflexo da nossa sociedade. Nós somos assim: capazes de encontrar uma infinidade de defeitos, incapazes de muitas vezes admitirmos as qualidades que apreciamos nos outros. Na hora da discórdia saem-nos pela boca fora tudo o que pensamos de mal, tudo o que odiamos naquela pessoa. Raras vezes somos capazes de a procurar para lhe dizermos como é inteligente, aplicada ou trabalhadora. Humilde, carinhosa ou admirável. Pior ainda quando nos referiamos às pessoas com quem vivemos todos os dias, com quem temos de partilhar este que é o mistério da vida. A rotina e o hábito de coabitarmos impedem-nos de termos gestos e palavras de apreço, mas levam-nos com facilidade ao insulto e ao ataque quando, por alguma razão, alguma coisa mal. - Todos os meus alunos olhavam-me firmes e fixos. Todos abanavam a cabeça, como que a manifestar que concordavam comigo, que este é o retrato das suas vidas, é o filme que vivem e sabem de cór. Eu não falava necessariamente deles, deixei-me levar pelo fenómeno que tinha à minha frente, via-os enumerar defeitos e quando eu pedia qualidades parece que pedia uma coisa difícil, parece que era estranho estar a pedir uma lista de coisas boas, de coisas das quais nos deveríamos orgulhar.

Não sei que diga. De facto não sei. A impressão que tenho é a de que as pessoas têm vergonha de expressar o que sentem, têm medo de parecerem ridículas porque admitem que amam, porque reconhecem que a pessoa tal tem esta qualidade, porque elogiam um filho, uma esposa, um companheiro. Mas na hora do disparate não nos poupamos ao insulto, cegos pelo momento, dizemos o que queremos e o que não queremos.

É a história de tantas vidas.

sábado, outubro 20, 2007

Gestos que marcam


Obrigada por esta flor que me dás. Obrigada pelas palavras bonitas e sinceras que me dizes. Obrigada por todos os dias te importares com aquilo que sinto. Obrigada por te esforçares por perceberes quem sou, o que quero, espero e desejo. Obrigada pelo gesto meigo com que tocas a minha face e me apertas o rosto. Obrigada pelo beijo que me mandas num sinal de carinho. Obrigada pelo braço que pões sobre o meu ombro quando me falas e que permite que não apenas comuniquemos através do diálogo, através do olhar, como através do próprio corpo. Obrigada.

sexta-feira, outubro 19, 2007

Procurado e ainda não achado


Procura-se homem, por dentro e por fora. Sincero, honesto, fiel, companheiro, carinhoso, humilde, atencioso, trabalhador, educado, cumpridor dos seus deveres, conhecedor dos seus direitos, exigente, nobre, forte, inteligente, romântico, interessante, culto, meigo, amigo, confiante, respeitador, sensível, bom comunicador, bom ouvinte, bom coração, efectivamente bom, com sentido de justiça e de crítica. Atento ao mundo, à actualidade e às necessidades de uma mulher. Apreciamos também que seja dinânico, criativo, irresistível imaginativo, imprevisível (no bom sentido da palavra), atento, observador e másculo.

Se acredita reunir estas condições ou conhece algum detentor de tais virtudes, faça o favor de entrar urgentemente em contacto connosco. O sexo feminino está claramente à sua espera há anos para o colocarmos no Livro do Guiness ou o impormos num qualquer pedestal envolto numa redoma de cristal para que todas o possam apreciar e sonhar consigo, mas nenhuma lhe possa chegar. Qual David, com um Homem como o senhor! Não hesite porque você é uma espécie única, rara e é um desperdício andar por aí perdido. Vamos encontrar um espaço quentinho e acolhedor, que esteja à sua altura e onde possa ficar. Esperamos por si, apresse-se que já se faz tarde. Obrigada.

quinta-feira, outubro 18, 2007

Parabéns


Há 25 anos abriste os olhos para o mundo pela primeira vez. Quis o destino que as nossas vidas se cruzassem novamente. Hoje a minha já está marcada pela tua. Pela tua existência. Pela tua passagem e permanência.

Num certo dia


Certo dia, numa certa praia, num certo lugar, numa certa esplanada estava eu certamente a olhar para o horizonte quando reparo que uma certa rapariga não tirava os olhos de cima de mim. Senti-me observado a certa altura e não descansei enquanto não percebia a razão de tal desconforto. Lá estava ela, sentada, sozinha, sempre fixa no meu olhar, na forma como estava. Incomoda-me saber que alguém reparou em mim. Discretamente olhei à minha volta na esperança de encontrar um modelo humano de cortar a respiração, alguém que merecesse tal admiração, mas não encontrei. Aquele olhar era mesmo meu. Naturalmente desviei o olhar e fixei-me na fantástica paisagem que tinha à minha frente: o mar, a areia, o sol que me encadeava, as pessoas que partilhavam a mesma vista que eu, umas sentadas, outras passeavam-se à beira mar. Não conseguia tirar da ideia o facto de ter uma pessoa que me observava. Eu que estava tão sossegado a organizar a minha vida, a estabelecer as minhas prioridades, os próximos passos que darei, tinha agora o meu pensamente invadido por uma estranha qualquer que se estava a intrometer na minha paz interior, sem que eu lhe tivesse dado ordem para tal. Achei uma invasão de privacidade. Volto a procurá-la com o olhar e ela continua firme na sua missão. Leva à boa o copo de sumo que tem à sua frente, agarra a palhinha com os dentes e faz questão que eu assista ao espectáculo de borla. Refresca-se e pousa o copo com cuidado. Sorri-me. Mantenho a minha cara séria, de quem não está a aprovar nem um bocadinho aquele tipo de comportamento e volto-me com frieza sem lhe dar qualquer tipo de confiança. Estava-me a irritar aquela mulher, mas a verdade é que não parava de pensar que ela continuava ali. Fechei os olhos e concentrei-me no calor que sentia na minha cara, fruto do sol quente que me abraçava ternamente. Neste momento vem-me à cabeça a imagem daquela mulher nua. Assustei-me com este pensamento, abri os olhos perturbado e olho-a novamente. Continuava a tentar-me, ela sabia que conseguiria o que queria. Detesto esta certeza que as mulheres têm: a certeza da nossa fraqueza, a certeza de que farão de nós o que quiserem, desde que o saibam fazer. Se pudesse mudava esta minha natureza fraca, humana. Se pudesse firmava a minha posição e ignorava o facto dela existir, mas não consigo. Diz o ditado que se não os podes vencer, junta-te a eles. Já me sentia envolto naquela situação que não queria e, de cada vez que pestanejava, já a encontrava com menos uma peça de roupa. Eu já pestanejava compulsivamente só para a encontrar novamente mais nua, mais despita, mais irresistível. Isto era só o princípio de algo que se viria a revelar muito interessante. O tempo passou e eu nem dei conta. Abandonei o projecto de organizar a minha vida, para me entregar à fantasia de uma estranha que me penetrou sem ordem, violou o meu pensamento e me conduziu a espaços inacreditáveis onde tudo é possível, sem pudor. Fui interrompido pelo telefonema que me lembrou um compromisso para o qual já estava atrasado. Desculpa, vou já, atrasei-me. Chamei o empregado, paguei o café e o bolo que tinha pedido. Passei por ela, parei à sua frente e sorri-lhe pela primeira vez. Ela retribuiu o sorriso. Percebi que vivemos um momento inesquecível sem que sequer nos tivéssemos tocado, sem termos trocado uma única palavra. Com o olhar agradeci-lhe o momento. Levei-a comigo. Foi dentro da minha cabeça, foi na recordação de uma tarde bem passada, numa certa esplanada, num certo lugar, numa certa praia, num certo dia em que eu certamente olhava para o horizonte.

quarta-feira, outubro 17, 2007

In manus tuas Pater


Quando o ritmo de absorver e sentes que não és capaz de responder com razoabilidade às rasteiras e aos desafios que a vida te traz: entrega-te às mãos daquEle que pode fazer alguma coisa por ti. AquEle que não te abandona.

segunda-feira, outubro 15, 2007

Gatos Fedorentos

Não resisto a colocar este vídeo como o post de hoje. Está muito bem conseguido.


domingo, outubro 14, 2007

Entre o sono e o sonho


No limite do desejo vive um sonho que se desenrola com princípio, meio e fim no fundo do nosso inconsciente. É uma pequena história de amor: criada, inspirada e enraizada nas histórias infantis contadas na cama antes de dormir. Os protagonistas e figurantes são aqueles que participam no nosso quotidiano. Ali assumem posturas diferentes, têm atitudes inesperadas, relevam aquilo que vive na nossa mente, mas não sabemos ou estamos esquecidos ou apenas queremos ignorar a razão deste porquê.

No sono profundo todos ressuscitam lentamente e ocupam os lugares que lhes competem. O sonhador expressa no rosto as aventuras a que é obrigado a viver, julgando estar a descansar, vê o seu universo invadido por todos os problemas que não conseguiu resolver sozinho, por todas as pessoas que ficaram pendentes e teimam em o revisitar sem ordem, hora ou local marcado. Outros sonhos manifestam verdades ocultadas, mascaradas com maquilhagens baratas e de fraca qualidade. As roupas do disfarce são antigas, cheiram a mofo, têm pó e estão fora de moda. No dia-a-dia vivemos com estas aparências, mas à noite, sem o querermos, vemo-nos nús, vemo-nos tal como somos. No dia seguinte quando acordamos e nos vemos ao espelho vem-nos a lembrança do sonho atropelado, ofegante e, aparentemente, sem nexo. Certo é que ele só nos quis mostrar o que temos por resolver, o que não nos abandona todas as vezes que cerramos os olhos para os abrirmos para um novo dia.

São filmes, séries ou episódios isolados, uns de fazer cortar a respiração, outros mais atrapalhados e sequenciais. Tantas vezes desejamos sonhar, tão raras vezes desejamos que eles sejam o que são, como são.

sexta-feira, outubro 12, 2007

Equilíbrio


Só para quebrar com o cinzento das últimas postagens: senta-te e descansa, é quase fim de semana.

Queria não, quero


Queria ter a certeza de que falamos a mesma língua e por isso a comunicação acontece, sem interrupções, sem falhas de rede ou mal entendidos.
Queria sentir que os desejos são comuns, bem como a forma como olhamos o mundo e o interpretamos.
Queria olhar na mesma direcção que tu e ver aquilo que vês.
Queria falar sem receios sobre o ontem, o hoje e o amanhã sabendo que me ouverias e compreenderias as escolhas mal feitas e os passos mal dados.
Queria chorar contigo as lágrimas que engulo e me queimam por dentro.
Queria entender o porquê da palavra calada ou do gesto contido uma vez que eu não sou capaz de as guardar.
Queria ser transparente como a água cristalina e leve como a pena que abandona o seu dono depois de cumprida a sua missão.
Queria interiorizar que o sol quando nasce é de facto para todos e não somente para uma meia dúzia.

quinta-feira, outubro 11, 2007


- Está? Ah, olá, és tu? Ena que bom ouvir-te, mas olha, agora não, desculpa, mais tarde talvez. Liga-me ou talvez não porque posso estar entretanto ocupado ou espera que eu te ligue ou talvez não porque posso-me esquecer. Sabes como é, não tenho tempo, não posso, não garanto, não prometo. Não esperes, não contes com nada, combinado? É preferível assim. Sabes como é, não tenho tempo, não tenho tempo, NÃO TENHO TEMPO.

Vá, fica assim alinhavado ou em águas de bacalhau se achares que é mais correcto, mais próximo da realidade. Não fica nada definitivo porque isso é pedir uma coisa que eu não posso dar, não tenho para dar e isto somente devido ao facto de eu não ter mesmo tempo. Não tenho, não posso, não aguento e não suporto. É inconcebível, sobrehumano, sobrenatural e, quase me atreveria a dizer, contranatura. E já percebeste o porquê, não é? Não tenho mesmo tempo, eu quase não como, não durmo, não sonho, não respiro. E se isto me acontece a mim, fará a contigo, não é verdade?

Esta é a conversa frontal possível entre dois indivíduos adultos, educados e com dois palmos de testa. Como assim somos tudo isto e muito mais é-nos permitido. É o rumo que a vida leva: não há tempo, ele escasseia, ele desaparece, ele esvaneia-se, some-se, consome-se, dissipa-se, dilui-se, absorve-se. Muitas vezes até mal se investe, mal se gere, mal se distribui. Mas este não é o meu caso como bem o sabes, como bem me conheces, seria incapaz de uma barbaridade destas, tenho-o contado ao milímetro e não cabe nem mais um minuto de atenção, de abstracção, de divagação, de realização. Desconheço o que seja isso da boa vida. Isso é só para alguns, não é para mim que vou sobrevivendo e esbarrando contra becos e esquinas porque me concentro no meu umbigo e não vejo o que tenho à minha frente. Por isso não tenho tempo, não tenho tempo, não tenho tempo. Olha, tenho um conselho amigo e já sábio, sim porque nestas correrias tenho aprendido muito com a minha falta de tempo, não queiras, não esperes, não desejes, não antecipes, não sonhes porque tudo sairá ao contrário daquilo que imaginaste. Já viste, na minha falta de tempo ainda tenho espaço para te dar bons conselhos, daqueles que nem se deviam dar, deviam era mesmo ser pagos de tão espertinhos e acertados que são. Vá, ficas-me a dever esta. Tenho de me despachar, não é nada importante pois não? Então, até logo.
- Já acabaste?
-Sim, estou sem tempo, vá despacha-te.
- Então por que te comprometes?

quarta-feira, outubro 10, 2007

Suspenso


Quando faltam as forças e tremem as pernas: agarra-te.
Quando choram os olhos e suam as mãos: recolhe-te.
Quando o pensamento vagueia e a insegurança te assombra: esquece.
Quando a raiva te consome e o ódio te possui: acalma-te.
Quando a dúvida permanece e a solução tarda a chegar: espera.
Quando a ansiedade te avassala e a tristeza se instala: sopra-lhe.
Quando a hora não passa e a noite não chega: distrai-te.
Quando o sono desaparece e a paz virou guerra: impõe-te.

Sossega. Reflecte. Respira fundo. Retém somente o que interessa. Não inventes. Define critérios. Age em conformidade. Não temas o amanhã. A vida só quer que tu sejas feliz.

terça-feira, outubro 09, 2007

Na intimidade


Exemplo. Testemunho. Admiração. Coragem. Dedicação. Reconhecimento. Gratidão. Entrega. Fidelidade. Confiança.
Tudo isto e muito mais porque: Deus é e só pode ser amor.

segunda-feira, outubro 08, 2007

Casa nova

Na casa deste casal amigo, recém-casado, com tudo por estrear, cheiro a novo, tudo intacto. Era a primeira vez que reuniam colegas e familiares para um mega almoço e lanche que pretendia juntar aqueles que lhes são mais queridos e perceberem o que é isto do bem receber. A ansiedade era a do costume, o brio e a perfeição eram as palavras de ordem - tudo se queria tirar das gavetas e dos armários. As toalhas vincadas combinavam com as velas decorativas, com os guardanapos coloridos e escolhidos a rigor, com os copos alterativos, diferentes, modernos. Da Bimbi saiam sumos naturais de vários sabores, cores e texturas, em pouco tempo enchia-se de jarros de sumo a mesa. De sede não haveríamos de morrer. Compunha-se a mesa de carnes frias, mariscos, queijos, presuntos, doces, docinhos, adocicados de todas as formas e feitios. Alguns ainda são do casamento, comentava a menina das honras da casa de sorriso rasgado no rosto. Congelámos e assim conservámos alguma comida para não a estragarmos, sobrou tanta coisa... Conheço-os bem. Sei como são poupados, não desperdiçam, não esbanjam. Aprecio esta qualidade.
Atrapalhados, lá se iam atropelando os anfitriões da festa: queriam que nada faltasse, que tudo estivesse ao gosto dos convidados, queriam mostrar que são capazes de gerir com naturalidade e rigor os vários desafios a que a vida de casados os obriga. A entrada a dois, na vida social, no seu ninho, no canto que escolheram para si e, futuralmente, para os seus filhos, que já têm o seu espaço reservado. Na casa dos meus pais era diferente, eu sabia que tudo estava nos seus ombros, eu era uma mera ajudante, hoje sinto que está tudo sobre mim, suspirava a dona da casa, já com algumas dores nas costas, mas sempre a transpirar alegria. O rapaz sempre incansável, de um lado para o outro, fazia tudo o que podia e entre uma tarefa e outra lá lhe ia massajando os ombros, na esperança de que assim a aliviaria do desconforto. Mais um beijinho na testa, um aperto carinhoso das duas mãos, hoje ligadas pela aliança brilhante que trocaram há duas semanas, e prosseguiam a sua luta.
Saí de lá com uma sensação de paz, de confiança e, acima de tudo, de enorme alegria por ter partilhado aquele momento. A construção de um projecto é sempre marcante, para quem o vive e para quem o assiste. Foi uma tarde muito bem passada.

sexta-feira, outubro 05, 2007

Gemido


Perdia a conta aos gemidos que não conseguia evitar. O último, já fraco e cansado, adormecia na almofada suada. Era o corpo fatigado que se entregava ao descanso, era a cabeça que repousava porque já não se aguentava erguida, era o olhar turvo que se fechava. Depois do terceiro suspiro, escorria uma lágrima pelo canto do olho esquerdo que se deixa morrer absorvida pelos lençóis amarrotados. Uma cama desfeita, com um aspecto desleixado, de quem se tinha descuidado dela ou apenas de quem a explorou de fio a pavio, sem olhar a quê, nem a quem. As pálpebras coladas não queriam acordar à noite fria que se tinha posto. Cada membro aconchegava-se ainda à intensidade do momento que se tinha proporcionado e que tinha culminado no que de melhor ela podia fazer: amor. Não temia assumir a sua opção, não receava os olhares alheios ou mais conservadores. Fazia-o e todos sabiam porque gemia e em cada grito que soltava, sentia o alívio da sua alma. Ignorava os murros na parede, as reclamações da vizinhança. Uma vez envolta na ofegante paixão carnal: cegava e ensurdecia. Só conseguia voltar a si calmamente, entregue à sua almofada, que acabava de beber a última gota da alegria e acolhia esta muher no sono profundo dos amantes.

quinta-feira, outubro 04, 2007

Aparências



Nem tudo o que parece, é.

quarta-feira, outubro 03, 2007

Mulher: nome comum, feminino, singular


Hoje: fiz a depilação, estiquei-me num banho quente e demorado, pintei as unhas, pus rimel nos olhos. Vesti uma saia, deixei três botões desabotoados na camisa branca justa, calcei os sapatos de salto alto. Penteei o cabelo, que estava solto e perfumado. Dei meia dúzia de voltas pela casa: sozinha e já a meia luz. Dirigi-me ao espelho de corpo inteiro que tenho escondido e olhei-me de alto a baixo. Observei-me com cuidado, atenta aos pormenores. Gostei do que vi. Gostei do que senti.

terça-feira, outubro 02, 2007

Eu abaixo assino

Não sei quem a inventou, mas criou um dos maiores e mais fascinantes mistérios que conheço. Como assinar? O que pôr? De que forma? Que critérios regem o código da boa assinatura? Os mais novos fascinam-se com este mundo por descobrir, criam inúmeras assinaturas e adoram sempre que permitimos que se expressem por meio desta espécie de marca criativa individual. A escolha da assinatura "ideal" que nos acompanhará para a vida é a previsão, a preparação para a entrada na idade adulta, conhecida e caracterizada pelos quilos de papéis e burocracias. Quando somos chamados a oficialmente apresentarmos o nosso símbolo somos avassalados por um misto de sensações: por um lado a ansiedade e o entusiasmo de quem se vai afirmar ao fim de tantos anos de treino, tanto papel e caneta gastos, por outro a vergonha do principiante inseguro que teme que a sua imagem de apresentação possa não ser bem aceite pela sociedade. Certo é que esta forma de afirmação pessoal mais cedo ou mais tarde acaba por acontecer e aí, fechamos os olhos e com a mão meia trémula, assinamos. E depois? Depois ninguém comenta, ninguém critica, não há opiniões concordantes ou discordantes. É aí que percebemos que ela depende só de nós e que é, de facto, um acto natural que só está a ser especial para nós porque o fazemos pela primeira vez. Com o tempo vamo-nos habituando e orgulhando do nosso carapau.