terça-feira, outubro 23, 2007

Talks


- Olá minha querida. Que bom encontrar-te por aqui. Ainda não me deste um beijinho hoje. Então, como correu o teu fim de semana? Esperava que me ligasses, não o fizeste. Fico feliz por saber que estás bem, mas isso não compensa a falta que me fizeste, a saudade que senti.
- Não te procurei, de facto, mas não quero com isso dizer que não me tenha lembrado de ti. Peço-te encarecidamente um favor. Pára com essa atenção, pára com essa doçura, não quero e não posso continuar a ouvir as tuas palavras ternas, a sentir o calor do teu olhar. Mede a consequência dos teus actos. Em parte não tens culpa, a minha revolta não é contigo ou por tua causa. Vens somente ressuscitar o que sou e o que tento que à viva força desapareça da minha vida. Portanto, e porque sei que me estimas muito, farás o que te peço.
- É um erro o que me pedes, mas fá-lo-ei por ti. Derreto-me com a tua inocente forma de estar, com a gentileza do teu gesto e o teu sorriso incomparável. Estás a voltar as costas à delícia de pessoa em te tornaste, em prol de um muito pouco. Olho-te porque te admiro, porque não consigo conter a alegria de te conhecer. Dou-te o espaço que me pedes, mas sei que o tempo falará por si e, nesse dia, sabes quem vais procurar.

segunda-feira, outubro 22, 2007

Qualidades e defeitos II


- Então diga-me lá o que é que a senhora ganha pelo facto de ser uma mulher humilde, trabalhadora e honesta?
- Bem, acho que as pessoas confiam mais em mim. Sou uma pessoa em quem se pode confiar.
- Muito bem. E agora diga-me de que forma é que pode moderar estes seus defeitos? Como é que a senhora pode ser melhor? Menos impulsiva ou teimosa?
- Eu? Como é que eu posso mudar os meus defeitos? Só conheço uma maneira. Pedindo a Deus, só Ele pode-me ajudar, mais ninguém. É a Ele que eu recorro para ser uma pessoa melhor.

domingo, outubro 21, 2007

Qualidades e defeitos


Esta semana estava com os meus alunos e tinha de os levar à reflexão sobre os defeitos e as qualidades. Dividimos o quadro a meio e conforme lhes vinham à ideia íamos distribuindo as características ora numa, ora noutra coluna.
- Mentiroso, ladrão, invejoso, orgulhoso, impulsivo.
Aos poucos a coluna dos defeitos atingiu uma proporção significativa. Achei o episódio curioso, não pude deixar de os chamar a atenção para aquilo.
- Meus amigos, temos dez defeitos e três qualidades. Não acham isto interessante? - isto é o reflexo da nossa sociedade. Nós somos assim: capazes de encontrar uma infinidade de defeitos, incapazes de muitas vezes admitirmos as qualidades que apreciamos nos outros. Na hora da discórdia saem-nos pela boca fora tudo o que pensamos de mal, tudo o que odiamos naquela pessoa. Raras vezes somos capazes de a procurar para lhe dizermos como é inteligente, aplicada ou trabalhadora. Humilde, carinhosa ou admirável. Pior ainda quando nos referiamos às pessoas com quem vivemos todos os dias, com quem temos de partilhar este que é o mistério da vida. A rotina e o hábito de coabitarmos impedem-nos de termos gestos e palavras de apreço, mas levam-nos com facilidade ao insulto e ao ataque quando, por alguma razão, alguma coisa mal. - Todos os meus alunos olhavam-me firmes e fixos. Todos abanavam a cabeça, como que a manifestar que concordavam comigo, que este é o retrato das suas vidas, é o filme que vivem e sabem de cór. Eu não falava necessariamente deles, deixei-me levar pelo fenómeno que tinha à minha frente, via-os enumerar defeitos e quando eu pedia qualidades parece que pedia uma coisa difícil, parece que era estranho estar a pedir uma lista de coisas boas, de coisas das quais nos deveríamos orgulhar.

Não sei que diga. De facto não sei. A impressão que tenho é a de que as pessoas têm vergonha de expressar o que sentem, têm medo de parecerem ridículas porque admitem que amam, porque reconhecem que a pessoa tal tem esta qualidade, porque elogiam um filho, uma esposa, um companheiro. Mas na hora do disparate não nos poupamos ao insulto, cegos pelo momento, dizemos o que queremos e o que não queremos.

É a história de tantas vidas.

sábado, outubro 20, 2007

Gestos que marcam


Obrigada por esta flor que me dás. Obrigada pelas palavras bonitas e sinceras que me dizes. Obrigada por todos os dias te importares com aquilo que sinto. Obrigada por te esforçares por perceberes quem sou, o que quero, espero e desejo. Obrigada pelo gesto meigo com que tocas a minha face e me apertas o rosto. Obrigada pelo beijo que me mandas num sinal de carinho. Obrigada pelo braço que pões sobre o meu ombro quando me falas e que permite que não apenas comuniquemos através do diálogo, através do olhar, como através do próprio corpo. Obrigada.

sexta-feira, outubro 19, 2007

Procurado e ainda não achado


Procura-se homem, por dentro e por fora. Sincero, honesto, fiel, companheiro, carinhoso, humilde, atencioso, trabalhador, educado, cumpridor dos seus deveres, conhecedor dos seus direitos, exigente, nobre, forte, inteligente, romântico, interessante, culto, meigo, amigo, confiante, respeitador, sensível, bom comunicador, bom ouvinte, bom coração, efectivamente bom, com sentido de justiça e de crítica. Atento ao mundo, à actualidade e às necessidades de uma mulher. Apreciamos também que seja dinânico, criativo, irresistível imaginativo, imprevisível (no bom sentido da palavra), atento, observador e másculo.

Se acredita reunir estas condições ou conhece algum detentor de tais virtudes, faça o favor de entrar urgentemente em contacto connosco. O sexo feminino está claramente à sua espera há anos para o colocarmos no Livro do Guiness ou o impormos num qualquer pedestal envolto numa redoma de cristal para que todas o possam apreciar e sonhar consigo, mas nenhuma lhe possa chegar. Qual David, com um Homem como o senhor! Não hesite porque você é uma espécie única, rara e é um desperdício andar por aí perdido. Vamos encontrar um espaço quentinho e acolhedor, que esteja à sua altura e onde possa ficar. Esperamos por si, apresse-se que já se faz tarde. Obrigada.

quinta-feira, outubro 18, 2007

Parabéns


Há 25 anos abriste os olhos para o mundo pela primeira vez. Quis o destino que as nossas vidas se cruzassem novamente. Hoje a minha já está marcada pela tua. Pela tua existência. Pela tua passagem e permanência.

Num certo dia


Certo dia, numa certa praia, num certo lugar, numa certa esplanada estava eu certamente a olhar para o horizonte quando reparo que uma certa rapariga não tirava os olhos de cima de mim. Senti-me observado a certa altura e não descansei enquanto não percebia a razão de tal desconforto. Lá estava ela, sentada, sozinha, sempre fixa no meu olhar, na forma como estava. Incomoda-me saber que alguém reparou em mim. Discretamente olhei à minha volta na esperança de encontrar um modelo humano de cortar a respiração, alguém que merecesse tal admiração, mas não encontrei. Aquele olhar era mesmo meu. Naturalmente desviei o olhar e fixei-me na fantástica paisagem que tinha à minha frente: o mar, a areia, o sol que me encadeava, as pessoas que partilhavam a mesma vista que eu, umas sentadas, outras passeavam-se à beira mar. Não conseguia tirar da ideia o facto de ter uma pessoa que me observava. Eu que estava tão sossegado a organizar a minha vida, a estabelecer as minhas prioridades, os próximos passos que darei, tinha agora o meu pensamente invadido por uma estranha qualquer que se estava a intrometer na minha paz interior, sem que eu lhe tivesse dado ordem para tal. Achei uma invasão de privacidade. Volto a procurá-la com o olhar e ela continua firme na sua missão. Leva à boa o copo de sumo que tem à sua frente, agarra a palhinha com os dentes e faz questão que eu assista ao espectáculo de borla. Refresca-se e pousa o copo com cuidado. Sorri-me. Mantenho a minha cara séria, de quem não está a aprovar nem um bocadinho aquele tipo de comportamento e volto-me com frieza sem lhe dar qualquer tipo de confiança. Estava-me a irritar aquela mulher, mas a verdade é que não parava de pensar que ela continuava ali. Fechei os olhos e concentrei-me no calor que sentia na minha cara, fruto do sol quente que me abraçava ternamente. Neste momento vem-me à cabeça a imagem daquela mulher nua. Assustei-me com este pensamento, abri os olhos perturbado e olho-a novamente. Continuava a tentar-me, ela sabia que conseguiria o que queria. Detesto esta certeza que as mulheres têm: a certeza da nossa fraqueza, a certeza de que farão de nós o que quiserem, desde que o saibam fazer. Se pudesse mudava esta minha natureza fraca, humana. Se pudesse firmava a minha posição e ignorava o facto dela existir, mas não consigo. Diz o ditado que se não os podes vencer, junta-te a eles. Já me sentia envolto naquela situação que não queria e, de cada vez que pestanejava, já a encontrava com menos uma peça de roupa. Eu já pestanejava compulsivamente só para a encontrar novamente mais nua, mais despita, mais irresistível. Isto era só o princípio de algo que se viria a revelar muito interessante. O tempo passou e eu nem dei conta. Abandonei o projecto de organizar a minha vida, para me entregar à fantasia de uma estranha que me penetrou sem ordem, violou o meu pensamento e me conduziu a espaços inacreditáveis onde tudo é possível, sem pudor. Fui interrompido pelo telefonema que me lembrou um compromisso para o qual já estava atrasado. Desculpa, vou já, atrasei-me. Chamei o empregado, paguei o café e o bolo que tinha pedido. Passei por ela, parei à sua frente e sorri-lhe pela primeira vez. Ela retribuiu o sorriso. Percebi que vivemos um momento inesquecível sem que sequer nos tivéssemos tocado, sem termos trocado uma única palavra. Com o olhar agradeci-lhe o momento. Levei-a comigo. Foi dentro da minha cabeça, foi na recordação de uma tarde bem passada, numa certa esplanada, num certo lugar, numa certa praia, num certo dia em que eu certamente olhava para o horizonte.

quarta-feira, outubro 17, 2007

In manus tuas Pater


Quando o ritmo de absorver e sentes que não és capaz de responder com razoabilidade às rasteiras e aos desafios que a vida te traz: entrega-te às mãos daquEle que pode fazer alguma coisa por ti. AquEle que não te abandona.

segunda-feira, outubro 15, 2007

Gatos Fedorentos

Não resisto a colocar este vídeo como o post de hoje. Está muito bem conseguido.


domingo, outubro 14, 2007

Entre o sono e o sonho


No limite do desejo vive um sonho que se desenrola com princípio, meio e fim no fundo do nosso inconsciente. É uma pequena história de amor: criada, inspirada e enraizada nas histórias infantis contadas na cama antes de dormir. Os protagonistas e figurantes são aqueles que participam no nosso quotidiano. Ali assumem posturas diferentes, têm atitudes inesperadas, relevam aquilo que vive na nossa mente, mas não sabemos ou estamos esquecidos ou apenas queremos ignorar a razão deste porquê.

No sono profundo todos ressuscitam lentamente e ocupam os lugares que lhes competem. O sonhador expressa no rosto as aventuras a que é obrigado a viver, julgando estar a descansar, vê o seu universo invadido por todos os problemas que não conseguiu resolver sozinho, por todas as pessoas que ficaram pendentes e teimam em o revisitar sem ordem, hora ou local marcado. Outros sonhos manifestam verdades ocultadas, mascaradas com maquilhagens baratas e de fraca qualidade. As roupas do disfarce são antigas, cheiram a mofo, têm pó e estão fora de moda. No dia-a-dia vivemos com estas aparências, mas à noite, sem o querermos, vemo-nos nús, vemo-nos tal como somos. No dia seguinte quando acordamos e nos vemos ao espelho vem-nos a lembrança do sonho atropelado, ofegante e, aparentemente, sem nexo. Certo é que ele só nos quis mostrar o que temos por resolver, o que não nos abandona todas as vezes que cerramos os olhos para os abrirmos para um novo dia.

São filmes, séries ou episódios isolados, uns de fazer cortar a respiração, outros mais atrapalhados e sequenciais. Tantas vezes desejamos sonhar, tão raras vezes desejamos que eles sejam o que são, como são.

sexta-feira, outubro 12, 2007

Equilíbrio


Só para quebrar com o cinzento das últimas postagens: senta-te e descansa, é quase fim de semana.

Queria não, quero


Queria ter a certeza de que falamos a mesma língua e por isso a comunicação acontece, sem interrupções, sem falhas de rede ou mal entendidos.
Queria sentir que os desejos são comuns, bem como a forma como olhamos o mundo e o interpretamos.
Queria olhar na mesma direcção que tu e ver aquilo que vês.
Queria falar sem receios sobre o ontem, o hoje e o amanhã sabendo que me ouverias e compreenderias as escolhas mal feitas e os passos mal dados.
Queria chorar contigo as lágrimas que engulo e me queimam por dentro.
Queria entender o porquê da palavra calada ou do gesto contido uma vez que eu não sou capaz de as guardar.
Queria ser transparente como a água cristalina e leve como a pena que abandona o seu dono depois de cumprida a sua missão.
Queria interiorizar que o sol quando nasce é de facto para todos e não somente para uma meia dúzia.

quinta-feira, outubro 11, 2007


- Está? Ah, olá, és tu? Ena que bom ouvir-te, mas olha, agora não, desculpa, mais tarde talvez. Liga-me ou talvez não porque posso estar entretanto ocupado ou espera que eu te ligue ou talvez não porque posso-me esquecer. Sabes como é, não tenho tempo, não posso, não garanto, não prometo. Não esperes, não contes com nada, combinado? É preferível assim. Sabes como é, não tenho tempo, não tenho tempo, NÃO TENHO TEMPO.

Vá, fica assim alinhavado ou em águas de bacalhau se achares que é mais correcto, mais próximo da realidade. Não fica nada definitivo porque isso é pedir uma coisa que eu não posso dar, não tenho para dar e isto somente devido ao facto de eu não ter mesmo tempo. Não tenho, não posso, não aguento e não suporto. É inconcebível, sobrehumano, sobrenatural e, quase me atreveria a dizer, contranatura. E já percebeste o porquê, não é? Não tenho mesmo tempo, eu quase não como, não durmo, não sonho, não respiro. E se isto me acontece a mim, fará a contigo, não é verdade?

Esta é a conversa frontal possível entre dois indivíduos adultos, educados e com dois palmos de testa. Como assim somos tudo isto e muito mais é-nos permitido. É o rumo que a vida leva: não há tempo, ele escasseia, ele desaparece, ele esvaneia-se, some-se, consome-se, dissipa-se, dilui-se, absorve-se. Muitas vezes até mal se investe, mal se gere, mal se distribui. Mas este não é o meu caso como bem o sabes, como bem me conheces, seria incapaz de uma barbaridade destas, tenho-o contado ao milímetro e não cabe nem mais um minuto de atenção, de abstracção, de divagação, de realização. Desconheço o que seja isso da boa vida. Isso é só para alguns, não é para mim que vou sobrevivendo e esbarrando contra becos e esquinas porque me concentro no meu umbigo e não vejo o que tenho à minha frente. Por isso não tenho tempo, não tenho tempo, não tenho tempo. Olha, tenho um conselho amigo e já sábio, sim porque nestas correrias tenho aprendido muito com a minha falta de tempo, não queiras, não esperes, não desejes, não antecipes, não sonhes porque tudo sairá ao contrário daquilo que imaginaste. Já viste, na minha falta de tempo ainda tenho espaço para te dar bons conselhos, daqueles que nem se deviam dar, deviam era mesmo ser pagos de tão espertinhos e acertados que são. Vá, ficas-me a dever esta. Tenho de me despachar, não é nada importante pois não? Então, até logo.
- Já acabaste?
-Sim, estou sem tempo, vá despacha-te.
- Então por que te comprometes?

quarta-feira, outubro 10, 2007

Suspenso


Quando faltam as forças e tremem as pernas: agarra-te.
Quando choram os olhos e suam as mãos: recolhe-te.
Quando o pensamento vagueia e a insegurança te assombra: esquece.
Quando a raiva te consome e o ódio te possui: acalma-te.
Quando a dúvida permanece e a solução tarda a chegar: espera.
Quando a ansiedade te avassala e a tristeza se instala: sopra-lhe.
Quando a hora não passa e a noite não chega: distrai-te.
Quando o sono desaparece e a paz virou guerra: impõe-te.

Sossega. Reflecte. Respira fundo. Retém somente o que interessa. Não inventes. Define critérios. Age em conformidade. Não temas o amanhã. A vida só quer que tu sejas feliz.

terça-feira, outubro 09, 2007

Na intimidade


Exemplo. Testemunho. Admiração. Coragem. Dedicação. Reconhecimento. Gratidão. Entrega. Fidelidade. Confiança.
Tudo isto e muito mais porque: Deus é e só pode ser amor.

segunda-feira, outubro 08, 2007

Casa nova

Na casa deste casal amigo, recém-casado, com tudo por estrear, cheiro a novo, tudo intacto. Era a primeira vez que reuniam colegas e familiares para um mega almoço e lanche que pretendia juntar aqueles que lhes são mais queridos e perceberem o que é isto do bem receber. A ansiedade era a do costume, o brio e a perfeição eram as palavras de ordem - tudo se queria tirar das gavetas e dos armários. As toalhas vincadas combinavam com as velas decorativas, com os guardanapos coloridos e escolhidos a rigor, com os copos alterativos, diferentes, modernos. Da Bimbi saiam sumos naturais de vários sabores, cores e texturas, em pouco tempo enchia-se de jarros de sumo a mesa. De sede não haveríamos de morrer. Compunha-se a mesa de carnes frias, mariscos, queijos, presuntos, doces, docinhos, adocicados de todas as formas e feitios. Alguns ainda são do casamento, comentava a menina das honras da casa de sorriso rasgado no rosto. Congelámos e assim conservámos alguma comida para não a estragarmos, sobrou tanta coisa... Conheço-os bem. Sei como são poupados, não desperdiçam, não esbanjam. Aprecio esta qualidade.
Atrapalhados, lá se iam atropelando os anfitriões da festa: queriam que nada faltasse, que tudo estivesse ao gosto dos convidados, queriam mostrar que são capazes de gerir com naturalidade e rigor os vários desafios a que a vida de casados os obriga. A entrada a dois, na vida social, no seu ninho, no canto que escolheram para si e, futuralmente, para os seus filhos, que já têm o seu espaço reservado. Na casa dos meus pais era diferente, eu sabia que tudo estava nos seus ombros, eu era uma mera ajudante, hoje sinto que está tudo sobre mim, suspirava a dona da casa, já com algumas dores nas costas, mas sempre a transpirar alegria. O rapaz sempre incansável, de um lado para o outro, fazia tudo o que podia e entre uma tarefa e outra lá lhe ia massajando os ombros, na esperança de que assim a aliviaria do desconforto. Mais um beijinho na testa, um aperto carinhoso das duas mãos, hoje ligadas pela aliança brilhante que trocaram há duas semanas, e prosseguiam a sua luta.
Saí de lá com uma sensação de paz, de confiança e, acima de tudo, de enorme alegria por ter partilhado aquele momento. A construção de um projecto é sempre marcante, para quem o vive e para quem o assiste. Foi uma tarde muito bem passada.

sexta-feira, outubro 05, 2007

Gemido


Perdia a conta aos gemidos que não conseguia evitar. O último, já fraco e cansado, adormecia na almofada suada. Era o corpo fatigado que se entregava ao descanso, era a cabeça que repousava porque já não se aguentava erguida, era o olhar turvo que se fechava. Depois do terceiro suspiro, escorria uma lágrima pelo canto do olho esquerdo que se deixa morrer absorvida pelos lençóis amarrotados. Uma cama desfeita, com um aspecto desleixado, de quem se tinha descuidado dela ou apenas de quem a explorou de fio a pavio, sem olhar a quê, nem a quem. As pálpebras coladas não queriam acordar à noite fria que se tinha posto. Cada membro aconchegava-se ainda à intensidade do momento que se tinha proporcionado e que tinha culminado no que de melhor ela podia fazer: amor. Não temia assumir a sua opção, não receava os olhares alheios ou mais conservadores. Fazia-o e todos sabiam porque gemia e em cada grito que soltava, sentia o alívio da sua alma. Ignorava os murros na parede, as reclamações da vizinhança. Uma vez envolta na ofegante paixão carnal: cegava e ensurdecia. Só conseguia voltar a si calmamente, entregue à sua almofada, que acabava de beber a última gota da alegria e acolhia esta muher no sono profundo dos amantes.

quinta-feira, outubro 04, 2007

Aparências



Nem tudo o que parece, é.

quarta-feira, outubro 03, 2007

Mulher: nome comum, feminino, singular


Hoje: fiz a depilação, estiquei-me num banho quente e demorado, pintei as unhas, pus rimel nos olhos. Vesti uma saia, deixei três botões desabotoados na camisa branca justa, calcei os sapatos de salto alto. Penteei o cabelo, que estava solto e perfumado. Dei meia dúzia de voltas pela casa: sozinha e já a meia luz. Dirigi-me ao espelho de corpo inteiro que tenho escondido e olhei-me de alto a baixo. Observei-me com cuidado, atenta aos pormenores. Gostei do que vi. Gostei do que senti.

terça-feira, outubro 02, 2007

Eu abaixo assino

Não sei quem a inventou, mas criou um dos maiores e mais fascinantes mistérios que conheço. Como assinar? O que pôr? De que forma? Que critérios regem o código da boa assinatura? Os mais novos fascinam-se com este mundo por descobrir, criam inúmeras assinaturas e adoram sempre que permitimos que se expressem por meio desta espécie de marca criativa individual. A escolha da assinatura "ideal" que nos acompanhará para a vida é a previsão, a preparação para a entrada na idade adulta, conhecida e caracterizada pelos quilos de papéis e burocracias. Quando somos chamados a oficialmente apresentarmos o nosso símbolo somos avassalados por um misto de sensações: por um lado a ansiedade e o entusiasmo de quem se vai afirmar ao fim de tantos anos de treino, tanto papel e caneta gastos, por outro a vergonha do principiante inseguro que teme que a sua imagem de apresentação possa não ser bem aceite pela sociedade. Certo é que esta forma de afirmação pessoal mais cedo ou mais tarde acaba por acontecer e aí, fechamos os olhos e com a mão meia trémula, assinamos. E depois? Depois ninguém comenta, ninguém critica, não há opiniões concordantes ou discordantes. É aí que percebemos que ela depende só de nós e que é, de facto, um acto natural que só está a ser especial para nós porque o fazemos pela primeira vez. Com o tempo vamo-nos habituando e orgulhando do nosso carapau.